por Marcia Valéria David

20.11.18

Eu tenho alma
E o que você tem?
Eu tenho sorrisos fartos de amigos loucos
E você, o que tem?
Eu sei andar na corda bamba
Sem deixar cair o suor do corpo
E ele sangra às vezes
E você, do que se recorda?
De que recortes de fotos e lembranças se orgulha?
Tenho e conto histórias de amores que tive, muitos passaram, alguns ficaram e se transformaram em amor de irmão
E você, o que guarda na mente?
E seu coração? Por quem ele pulsa? Se é que pulsa
O meu é valente
Em paz
Não pisei e nem hei de pisar no coração de ninguém
É isso que te faz grande?
Pois saiba que sua grandeza não me apraz
Cá estou feliz em ser um grão da areia que beija o mar
E sente a pele viva de quem nela se deita
Com prazer e cor
Não sei se é triste se alimentar do que faz chorar de dor
Nunca hei de saber
Disso me livrei
O choro que nutre a minha essência
É o que vem do abraço grudento e apertado do amigo
Que cola por dentro
Me faz ser inteira de novo
E você?

1.11.18


Era um vício das tardes
Te buscar
Te mimar
Te levar
Te carregava pra todo lugar
Te ostentava por dentro
Onde ninguém via
Era uma fantasia
Só minha
Deitada sobre um lençol 
Branquinha
Ali eu te amei por muitas estações
Todas que não vivemos
Mas eu lembro do jardim
Sempre de tarde
Sempre tão tarde
Tarde demais


Não se pode voltar no tempo
O que o corpo sentiu
O desejo no tom de voz
No primeiro olhar escondido
O sorriso do primeiro cheiro
Perto demais
Chegamos no limite de ser
Tudo se perdeu
Perdi o rumo naquele abraço
Perdi o sentido de ter
Já não era só
Cada parte continuava no outro
Cabelo
Pele
Orelhas
Mãos
Tudo arrancado
Tomado
Tantas vezes
Tudo que foi apagado
Dói por não existir
Dói por respirar longe daqui

18.6.17

Por ti

Fale baixo
Não acorde a saudade
Ela já faz falta
Sem que ofereças
Beijos de amor
A hora que passa
Derrama
Me inflama
Uma agonia de viver
Tão longe
Quando tu chegas
Só quero a ti
Nem ser, nem respirar
Tudo é por ti

1.5.17


Agora que conheceu o futuro
Uma brecha de perdida história
Recobra a sanidade e se importa 
Com a fera que não te espera
Eu quis, sonhei e não pertenci
Deixe ir o que não quis ter
Não quis ser
Nem salvar




3.4.17

Corro pro Mar












e vamos navegando mar adentro
sem temer as ondas
sem se esquivar da chuva

deixando que velas leves
nos deem a direção
do vento, da correnteza, do céu

noite de estrelas
que guiam o seu olhar
pro meu caminho
pro nosso andar

estradas que se cruzam
corpos que se navegam
rotas de partida e de chegada
e de encontro ao luar

Fora de hora


eu gostei
do inesperado tema
a chuva

surpresa
fora de hora
passada a vida
ultrapassado o limite

não deu tempo do abrigo
nem de passos largos

só abri os braços
e permiti que corresse o corpo
revirasse os cabelos
me fechasse os olhos
e beijasse o rosto
a alma

Tempestade


a sangue frio
um arroubo, um arrebatamento
entrou aos tropeços
coração adentro

esbarrou em medos
tristes olhares
romantismos serenos

se apossou do sofá, da sala
da vasta mansidão do nada
ocupando tudo
preenchendo largos sorrisos bobos

dedilhando corda por corda
desse instrumento torto
cheio de notas dissonantes
compôs música, tocou pra mim
tocou em mim
e distante desejei ter além da melodia

A sangue frio
me veio como folhas na água
ventania espalhando brasa
ardendo, queimando
tirando o sossego

treinando a monotonia pra ser cor
cores, vasto, denso, tenso, leve

flor


30.3.17

Na Janela da Mente

Amanhã quando eu acordar
Me olha da janela
Traz contigo a flor mais bela
Pula e vem me dar

Conta como foi que a vida
Te inventou tão linda
E me fez sonhar

Joga seus cabelos-cachos
Por cima do rosto
Exalando o perfume
Que a memória vai deixar
Quando eu acordar

E se eu não te encontrar
Naquela tela
Que pintei tão cheia de cor

Vou lembrar da janela
Que se abriu pra ela
Lembrança contente
Do cabelo perfumado de flor

2.6.16

Impressões

Foto: Marilena Guimarães
Casa de Claude Monet
Giverny - França
Primavera - 2016
Me dê um riso
Me dê um aviso
Da sua chegada
Um pássaro levado ao vento
Que pousa na minha janela
Me dê um dia da sua Primavera
Me dê um dia de sol e de quimera
Rego as flores
Planto cor no quadro do pintor
Impressões nítidas da sua luz
Planto gosto na língua
De se deixar viver
De se deixar encantar em pétalas e asas
Voar não sai da minha cabeça
Me dê o céu
Me dê nuvens pra desbravar
Apago o breu
Te acendo em mim
Pra gente não se perder no escuro
A noite vai crescer em Lua
Cheia, imensa, amanhecendo em suor e vinho
Me dê um ninho
Eu guardo as asas
E fico bem mais
Em você

9.4.16

Asas ao Sol

Quando te olho sou menina
São as asas que me faltam
É o ar que não respiro
Avalanche de loucura em que me acho
E um pânico pueril do primeiro dia
Do primeiro beijo
Alegria esquisita de querer e não querer
Um temer sem se provar
Semear sem ter certeza do que brota
Quando você chega nada termina
Tudo é começo
Tudo é mar e brisa de primavera
Alto-relevo da sensação que não descrevo
Não me atrevo
Os pés que não se movem
A boca que não cala e se cala sem cessar
Quando você está eu permaneço
Quando você sorri
Esqueço que me faltam asas
E saio a voar

14.2.16

Indo

Tento grudar minha mão nas suas costas.
Num movimento torto de não te deixar ir.
Te vi sair tantas vezes que já não tenho certeza se volta.
Grudo minha mão nas suas costas enquanto você dorme.
E quando acorda, estão marcados em mim.
Dedos, unhas, pele...
Linhas acesas nos meus olhos.
É você de costas...
Ardendo nas minhas mãos.

21.9.15

Então

Sei que deveria escrever uma poesia.
Porque cabe mais sol nesse sorriso.
Há mais doçuras pra dividir e trocar quando te olho.
Eu sei que deveria dizer a coisa certa.
Mas nem certeza se tem quando o toque incendeia.
Eu sei que deveria haver uma canção no fundo da cena, mas eu só escutei sua mansidão.
O cinema vazio, o filme na tela, e só tinha uma pessoa ao meu lado.
Eu sei que deveria fazer rima, e versos simétricos e bem elaborados.
Mas quem pode com a inesperada calmaria do mar?
O vendaval na areia, e a mudança das dunas?
Não existe forma poética que me diga como será essa espera.
Do abraço que sonhei, do beijo que senti no ar, do emaranhado de borboletas revirando o estômago.
Coloridas, asas fazendo cócegas.
A vida já me encanta agora com sonetos perfeitos.
Quem sou eu pra inventar letra de música?

21.4.15


É que a inspiração se acumula.
E explode de repente.
Como a necessidade de regar a planta.
Chorar sorrindo.
Sorrir da gula.
Comer e engasgar.
Esfregar na cara. 
Todo doce. 
Todo açúcar. 
Todo mel.
Caramelizar a vida empapada de beijo.
Beijar, lamber, gozar.
Viver é doce. 
Só pode dar nisso